Expedition in the Himalayas – Tilicho Peak (7134m) - November 2003
É quase impossível de descrever aquilo que senti quando me encontrei no meio dos Himalaias, rodeado por uma paisagem natural cuja beleza é única no mundo e por um sentimento de paz de espírito somente quebrado pelos sons da própria natureza. Só mesmo estando lá, para poder viver todas estas emoções.
A paixão pelo mundo e pelos desportos de montanha já vem de longa data, chegando mesmo ao ponto de actualmente me encontrar a viver em Chamonix (Alpes Franceses), facto este que me permite realizar durante todo ano inúmeras actividades de montanhismo, e que por sua vez ajudam-me a preparar física e tecnicamente para as minhas expedições.
Desta forma, e após um ano repleto de várias experiências muito enriquecedoras, decidi que o próximo passo passaria por uma expedição nos Himalaias. Na sequência disto, juntei-me a uma equipa francesa que planeava fazer o trekking do Tour dos Annapurnas e a ascensão do Tilicho Peak (7134m).
Após a concentração em Paris que foi seguida por um voo muito atribulado na Bangladesh Airlines, chegamos a Kathmandu, capital do Nepal, no dia 6 de Outubro, onde tivemos alguns dias para conhecer um pouco da sociedade, cultura e religião nepalesa. Com uma população a rondar os 700.000 habitantes, podemos denominar Kathmandu como uma “cidade santa” (devido à existência de inúmeros edifícios religiosos, originários do facto de a sociedade nepalesa se encontrar divida entre o Hinduísmo e o Budismo), como um “autêntico desastre ambiental” (pelo facto da existência de um trânsito caótico e da enorme quantidade de lixo espalhado pelas suas ruas), ou também como a “cidade dos inúmeros prazeres”, pois é-nos dada a oportunidade de presenciar e experimentar alguns dos aspectos mais significativos desta sociedade, como a culinária, cerimónias religiosas, artesanato, música, entre outros.
No dia 9, e depois de 8 horas de viagem em autocarro pelas sinuosas estradas do Nepal, chegamos a vila de Besi Sahar onde começamos o Tour os Annapurnas. Este trekking, que é um dos mais conhecidos a nível internacional, tem a duração média de 22 dias. Outra das suas características é que começa a uma altitude de 700m, encontrando-se o seu ponto mais alto a cerca de 5416m, o que implica alguns cuidados ao nível da aclimatização à altitude, de forma a evitar quaisquer doenças relacionadas com o “mal de montanha”.
Durante os 6 dias seguintes percorremos o Tour dos Annapurnas, desde Besi Sahar (686m) até Manang (3500m), o que nos permitiu confrontar alguns dos pormenores da vida rural do Nepal, assim como ver pela primeira vez algumas das montanhas mais altas do nosso planeta. Um dos aspectos mais interessantes que encontrei nos Himalaias foi o facto de existir uma discrepância de mais ou menos 2500m entre esta cordilheira e os Alpes Europeus quer a nível da fauna, da flora e dos glaciares existentes. Isto é, enquanto que na Europa a vegetação torna-se inexistente a cerca de 2500m, nos Himalaias, a 5000m de altitude, ainda podemos encontrar alguns arbustos.
No dia 16 de Outubro abandonamos o percurso do Tour dos Annapurnas e começamo-nos a dirigir para o Campo Base do Tilicho Peak (4950m), e que ainda se encontrava a 4 dias de viagem. Continuando a progredir muito lentamente em altitude, de modo a que a aclimatização fosse a mais correcta possível, deixamos todos os traços de civilização para trás. A partir deste dia seriam cerca de 3 semanas sem contacto com o mundo exterior e com outras pessoas a não ser os membros da expedição.
Dois dias depois (18/10) avistamos pela primeira vez o lago mais alto do mundo, o Tilicho Lake (4900m). De uma beleza única, esse lago viria a ser mais tarde a nossa fonte de água natural, durante a nossa estadia no Campo Base.
Após 10 dias de marcha desfrutando de paisagens magníficas, chegamos finalmente ao Campo Base. Depois de nos instalarmos o mais confortavelmente possível, tivemos a visita de um Lama para celebrar a puija, cerimónia de índole budista com o intuito de invocar a protecção dos deuses para a nossa ascensão.
Depois de 2 dias de descanso merecido, subimos pela primeira vez ao Campo 1 (5850m). O objectivo desta primeira ascensão era o de equipar este campo e também o de nos aclimatarmos às grandes altitudes. Neste mesmo dia regressamos ao Campo Base para mais um dia de repouso.
No dia 24 de Outubro voltamos a ascender ao Campo 1, mas desta vez com o intuito de lá passar a noite. Derreter neve, comer, beber e dormir são as únicas tarefas do dia a dia em altitude, a não ser claro o sempre presente jogo de cartas para ajudar a passar o tempo.
No dia seguinte estava planeada uma subida ao Campo 2 (6300m) cujos objectivos eram exactamente os mesmos da primeira ascensão ao Campo 1. No entanto, e devido a aproximação de uma tempestade, tivemos que abandonar estes planos e regressar ao Campo Base. Vento forte e neve fizeram-se sentir durante a noite seguinte, e pela manhã quando acordamos tínhamos uma camada de neve à nossa volta com cerca de 15cm de espessura.
Era já dia 27 de Outubro e ainda não tínhamos qualquer equipamento no Campo 2, o que deixava uma margem de tempo muito pequena para levar avante a ascensão como inicialmente tínhamos planeado. Assim optamos por eliminar a fase de aclimatação no Campo 2, seguindo directamente para o cume.
Desta feita no dia 28, e de acordo com este segundo plano, subimos pela terceira vez ao Campo 1, onde passamos a noite. Só que notamos desde logo que havia muita neve fofa, o que dificultava imenso a progressão.
O dia 29 reservava-nos a ascensão entre o Campo 1 e o Campo 2. Cerca de 450m de desnível, que foram feitos em 4 horas e com alguma dificuldade (devido a grande quantidade de neve que tinha caído e também pelo facto de estarmos muito sobrecarregados de material). Só que este esforço teve a sua compensação, pois a excelente vista que este campo de altitude nos oferece é algo de fabuloso.
No entanto apesar de estarmos todos muito satisfeitos com a nossa prestação, o vento e frio não nos deram descanso. Durante a noite a temperatura rondava os 20º negativos, e por este facto a partida para o cume, que estava marcada para as 2h da manhã, foi adiada para o dia seguinte. Só que vários acontecimentos ocorreram durante este dia que nos fizeram mudar de opinião e abandonar o Tilicho Peak a cerca de 6500m. Muito vento, muito frio, muita neve e algumas avalanches na face norte da montanha foram os factores que conjuntamente ajudaram-nos a chegar à conclusão que o Tilicho Peak encontrava-se muito perigoso e não valia a pena arriscar uma ascensão nestas condições.
Nesse mesmo dia regressamos ao Campo Base, onde começamos a arrumar o material de forma a podermos regressar a Kathmandu. No final da expedição o sentimento era de alguma frustração e a moral encontrava-se um pouco em baixo, mas fica sem dúvida uma excelente experiência recheada de bons e belos momentos para mais tarde recordar.
Broad Peak 2004 (8047m)
Após esta expedição no Nepal, que apesar de não ter conhecido o sucesso no respeitante à ascensão do Tilicho Peak, proporcionou boas experiências que serão certamente aproveitadas em ocasiões futuras, encontro-me neste momento em fase de planeamento da minha próxima expedição. Desta vez o destino escolhido será o Paquistão, país onde se pode encontrar 5 das montanhas com mais de 8000m do planeta Terra, entre as quais o famoso K2 (8611m). A viagem que terá lugar entre os dias 20 de Junho e 9 de Agosto de 2004, tem como objectivo a ascensão do Broad Peak (8047m), a 12º montanha mais alta do mundo.