Mont Blanc - Grand Pilier d'Angle with Jean Louis Manesse
Mont Blanc - Grand Pilier d'Angle
Data: 20 de Julho de 2005
Cume: Mont Blanc (4810m), França (Massiço do Monte Branco)
Via: Nova Via (900m de escalada em neve e gelo)
Dificuldade: (V / 5)
Desnível: 1200m
Horários: 23 horas
Descrição da Via:
Cordada: Jean Louis Manesse
Topo: Neige, Glace e Mixte
No passado dia 20 de Julho, eu e um amigo francês, Jean Louis Manesse, abrimos uma nova via/variante no lado italiano do Monte Branco (4810m), o ponto mais alto da Europa Ocidental.
A via desenrola-se na face do Grand Pilier d’Angle, aquela que é considerada como a verdadeira face norte do Monte Branco.
“Ela é sem contradição a face, em misto, rocha ou gelo, mais assombrosa, mais selvagem, e mais perigosa que eu alguma vez observei nos Alpes”, escreveu Walter Bonatti, grande alpinista italiano.
A via, que é em neve e gelo na sua totalidade, tem cerca de 900m de altura, e conta com inúmeras passagens a 80°/90°. De seguida, e ao chegar ao topo do Grand Pilier d’Angle, é necessário ainda escalar os 600m restantes da Aresta de Peuterey, uma das arestas mais belas dos Alpes.
Partimos no dia 19 de Julho por volta das 8:00h de Chamonix com destino ao refúgio da Fourche (3682m), só que devido ao intenso nevoeiro que se fazia sentir, a marcha de aproximação ao refúgio durou o dobro do previsto. Chegamos ao refúgio por volta das 16:00h e depois de uma saborosa refeição e de um pequeno descanso, partimos às 23:00h do dia 19 com destino à imponente face do Grand Pilier d’Angle.
Devo dizer que a visão que tínhamos do refúgio sobre a face do Grand Pilier d’Angle nos proporcionava um sentimento estranho, um misto de ansiedade, nervosismo e medo. Sentimento que desapareceu por completo mal pusemos os pés fora do refúgio. A noite estava maravilhosa. Não estava muito frio e tínhamos a companhia de uma bela e reconfortante lua cheia. Tudo estava na perfeição.
Atravessamos o Glaciar da Brenva de modo a atingirmos o colo Moore (3557m), e pela primeira vez vimos na sua totalidade a via que iríamos realizar.
Descemos novamente até atingirmos a face do Gran Pilier d’Angle, a cerca de 3370m.
A via desenrola-se em quatro fases. A primeira, que tem o comprimento de cerca de 300m, é a mais fácil tecnicamente, não ultrapassando os 60° de inclinação. No entanto tem o problema de estarmos durante cerca de duas horas expostos à queda de avalanches e seracs (enormes blocos de gelo que podem atingir o tamanho de prédios).
A segunda fase é a parte técnica da via. São 400m de escalada em gelo com passagens a 80°/90°. Foi durante esta fase que tivemos o prazer de assistir ao nascer do dia. Algo de indescritível...
A terceira parte consiste na ascensão de uma face de 200m com inclinação media de 60°, e é desta forma atingimos o cume do Grand Pilier d’Angle.
De seguida vinha a fase final, a escalada da aresta de Peuterey. Só que tivemos um pequeno problema. A acumulação de neve era enorme e tivemos que fazer o nosso trilho ao longo da subida. Isto retardou-nos imenso, pois a fatiga e o facto de nos encontrar-mos a mais de 4000m faziam-se sentir.
Chegamos ao cume do Monte Branco às 19:00h, já estávamos a andar há cerca de 20 horas. A alegria e o sentimento de realização pessoal eram enormes. Tínhamos realizado um sonho, não só pelo facto de escalar esta mítica face, como também pela abertura de um novo itinerário. Encontrávamo-nos no cume do Monte Branco, sozinhos, completamente isolados de tudo e rodeados por uma paisagem magnífica. São momentos como este que nos permitem dizer: “A vida é bela...”.
No entanto faltava ainda a descida. O regresso do cume do Monte Branco ao refúgio de Cosmiques durou 3:30h. Por volta das 22:30h já estávamos sentados à mesa a beber um bom chocolate quente. E que bem que nos soube... afinal de contas foram quase 24h de actividade.
Depois de uma boa noite de sono no refúgio, regressamos a Chamonix no dia 21 de manhã.
De regresso a casa começo finalmente a interiorizar aquilo que vivi durante os dois últimos dias. O misto de sentimentos e de sensações. O enorme desgaste a que o corpo humano foi sujeito. A alegria e regozijo final.
O grande sonho e objectivo alcançado. Todos estes pensamentos passam-me pela cabeça a todos os instantes, mas apesar disto tudo a única pergunta que me faço constantemente é: “Qual a ascensão que vou fazer amanhã?”.